O castelo, as muralhas da
cidade e a ponte (extrato)
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A voz do povo fala convictamente sobre uma ”ponte romana” em Tavira. Os historiadores com as suas pesquisas ainda não conseguiram nem provar nem negar a sua existência de forma convincente. Não é possivel determinar a verdadeira localização desta ponte que provavelmente existiu ligando Faro e Mértola/Beja evitando assim os intransitáveis caminhos dos montes algarvios. O que hoje vemos é o resultado de um enorme poder de contrução durante os meados do séc.XVII. Entre 1655 e 1657 as obras da ponte foram concluidas sob a direcção de um arquitecto português e um engenheiro francês.
Manteve-se de pé muito tempo
até que, com as pesadas chuvas da noite de 3 de Dezembro de 1989, o rio Séqua
alagou as margens e os objectos que a corrente consigo arrastou destruiram
parcialmente a ponte tornando-a assim intransitável, mesmo para os peões. Durante cinco dias os habitantes da cidade
estiveram separados uns dos outros até que os militares e a JAE uniram as duas
margens com um pontão e uma ponte auxiliar do Jardim Público, a qual ainda hoje
existe. Só em 1992 é que terminaram os
trabalhos de reconstrução da tão querida ponte, que com aquela catástrofe
natural ainda mais enraizada ficou na memória da população e dos seus
visitantes.
Produtos agrícolas
As colheitas nas terras algarvias realizam-se durante a
época alta do turismo, no mês de Agosto. Figos, amêndoas e alfarrobas são
apanhados e, antes de serem postos a secar, são descascados, abertos,
acondicionados em sacos e enviados para os armazéns. A vez das azeitonas chega
mais tarde, só lá para o início de Novembro.
Só quem ajudou nas colheitas pode compreender o doce e o
amargo deste trabalho. Quase que se deseja que os turistas passem também por
este árduo trabalho físico para que possam compreender melhor esta infatigável
gente agrária lá dos confins da serra, que ainda se esfalfa para oferecer as
parcas colheitas dos seus pequenos terrenos nos mercados das povoações do
litoral. Claro que a jovem geração algarvia não se interessa por este tipo de
trabalho...
Os incomparáveis frutos de Algarve, antiga riqueza com um
exótico encanto, já não encontram mercados adequados. Não está à vista uma
solução económica que preserve também a identidade algarvia. Hoje, a maior
parte das amêndoas são importadas de Espanha e da Califórnia, uma vergonha para a ”terra das flores de amendoeira”.
Também sucede que certos comerciantes espanhóis comprem camiões de deliciosas e
doces laranjas (da região entre Olhão e Tavira), vendendo-as posteriormente em
Sevilha como sendo a sua própria especialidade mundialmente conhecida.
“Flor do Algarve”
Se pudéssemos perguntar a este barco de pesca ancorado
nas docas de Santa Luzia de onde é que ele vem, o que é que ele faz actualmente
e como é que será a seguir, ele contar-nos-ia: “Eu sou um barco de pesca
tipicamente algarvio, com cinco toneladas a deslocarem-se na água e 60 anos
sobre os costados. O meu capitão navega diariamente, excepto aos Domingos,
durante seis ou sete horas ao longo da costa com a sua tripulação de quatro
homens para ir à pesca do polvo. A pesca processa-se da seguinte forma: submergem
cerca de mil alcatruzes a cerca de cem metros de profundidade e esperam até que
estes moluscos de vários tentáculos procurem uma protecção e simultaneamente a
armadilha para os poderem içar. Só
é permitido apanhar e vender animais destes com mais de 700 gramas. Nos últimos
tempos, a pesca não tem sido tão boa como dantes e, consequentemente, o meu
capitão e os seus homens, depois de descontarem os custos, pouco ou nada
lucram. É óptimo que vocês tenham passado por cá e me tenham fotografado, pois
o Sr. José Timoteo, meu capitão, vai mandar-me desmantelar e vai comprar um
barco novo para assim poder ter o seu ganha pão. Eu desejaria ter servido por
mais tempo mas não tenho hipótese de escolha. Também aqui a rentabilidade está
na ordem do dia dada a forte concorrência entre os pescadores espanhóis,
portugueses e marroquinos. Mas
não fiquem tristes, a vida continua ... Então adeusinho turistas!”
Lendas que formam a
identidade
Em cada uma das
paredes laterais do altar principal da igreja de Santa Maria do Castelo
encontramos uma pedra comemorativa. Os restos mortais do supostamente gigantesco D. Paio Peres Correia, cavaleiro de São Tiago
e mestre da ordem militar, que com as suas tropas conquistou a alcaría aos
mouros em 1242 e faleceu em 1275,
encontram-se desde 1751 por detrás da placa tumular à esquerda. Fontes espanholas defendem que as ossadas deste herói descansam num
convento de Castela. Ele terá ordenado que os seis homens pertencentes ao seu
séquito, assassinados pelas costas pelos mouros, tivessem a sua última morada,
como mártires, neste local. À direita
do altar-mor sete(!) cruzes da Ordem de
S. Jacob recordam este incidente que se perdeu na névoa da história. Todavia, ”uma
antiga crónica” revela-nos o nome destas vítimas. Os cavaleiros foram citados como sendo D. Pedro Paez, Mem do Valle, Damião Vaz, Estevão Vasques, Valerio
de Ossa e Álvaro Garcia. A estes junta-se o nome de Garcia Rodrigues,
comerciante de Faro, que, por estar com os cavaleiros cristãos, foi também
assassinado.
O facto de este
último ser judeu dá-nos uma informação importante, segundo o
historiador José Hermano Saraiva, sobre a situação cultural e económica de
Tavira naquela época. Conquistadores cristãos que expulsaram ou marginalizaram
os mouros convivem e trabalham sem problemas com negociantes judeus que, muito
conceituados durante a ocupação mourisca, permaneceram na cidade após a conquista
cristã.
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Estas conclusões sobre o mito da fundação
parecem ser mais significativas que culpar os mouros de terem cometido uma
maliciosa traição sobre aos pacíficos ”caçadores” num dado momento das tréguas.
Não teriam os mouros pressentido a traição quando vislumbraram das muralhas de
Tavira a bandeira do corajoso cavaleiro D. Paio? A versão da traição deve ter
enraivecido os conquistadores e servido de justificação para transformar a cidade em escombros, sem tem em conta a sua elevada cultura
islâmica, e para dizimar a população que não conseguiu fugir. A principal finalidade da lenda foi afinal a
de assegurar os direitos dos portugueses durante o diferencia luso-castelhano
sobre o Algarve recentemente conquistado. Desde 1266, o rei D. Afonso III
realizou inúmeras reconstruções e transformou a mesquita numa igreja, no local
onde hoje se encontra a de Santa Maria do Castelo.
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Da nossa Tavira é relatado que o governante
mourisco Iben-Fabila, perante o ataque do rude D. Paio, tomou a sua preciosa
filha, deleite dos seus olhos e, para a pôr a salvo, a encantou numa fonte
(Poço de Vaz Varela), por mais de 1000 anos. De acordo com outra versão, esta
ou outra(?) princesa assombra à meia - noite, antes do S. João (24 de Junho),
as ameias do castelo, procurando sempre
o amor do seu cavaleiro que a livrará do encantamento... Ainda há de esclarescer, se, para esta tarefa, ja
chegasse o amor dum turista. Um romance de Estácio da Veiga, escritor e arqueólogo honrado com a
realização de um busto, termina da seguinte forma: ”Por fim ganha um bom castelo /
Mas ... sem moura para amar.”